sexta-feira, 28 de julho de 2017

Mariota é melhor do que você imagina

Não há dúvidas de que o Titans é uma das equipes menos interessantes da liga desde o início desta década. O nosso número de torcedores no Brasil exemplifica isso perfeitamente. O boom da NFL por aqui aconteceu a partir de 2012, e como ocorreu comigo, quem começa a acompanhar o esporte vai se identificar mais com os times que ganham. Isso é óbvio. Como o Titans não vencia e nem aparecia nos jogos transmitidos para o país, a nossa torcida ganhou pouquíssimos membros.

Como toda boa história, há um plot twist aqui. E ele responde pelo nome de Marcus Mariota. Eu não sei como esse cara foi parar em Nashville. A franquia estava tão bagunçada que era improvável eles fazerem a coisa, mas eles fizeram!

Mariota é do Titans há duas temporadas e ele vai salvar a gente. É melhor se acostumarem, em pouco tempo a nossa torcida no Brasil vai explodir.

Com a propriedade de quem assistiu todos os QBs do Titans jogarem, posso dizer que o Mariota é o melhor signal caller que a franquia já teve.

A principal arma do Mariota é a sua precisão. De acordo com o analista Jonathan Kinsley, o jogador da Universidade do Oregon consegue ser efetivo nas tight windows porque ele possui uma das mecânicas mais apuradas da liga. Enquanto se move muito bem no pocket, ele consegue lançar a bola de forma compacta, suave e bastante veloz.

A parte tática do jogo do Mariota dispensa comentários. Quando toda a NFL questionava a sua capacidade de leitura por conta do esquema simplório utilizado por Oregon, ele mostrou habilidades completamente opostas. Inteligente, Mariota é capaz de diagnosticar todo o campo em poucos segundos. Se isso não fosse o suficiente, ele ainda manipula os oponentes com os seus olhos, se tornando o responsável muitas vezes por deixar os seus WRs livres.

Mesmo mostrando talento suficiente para ser o centro de um ataque complexo na liga, Mariota ficou preso a um esquema menos exigente no ano passado. Segundo o analista Cian Fahey, ele deveria liderar um ataque que utilizasse o maior número de WRs possíveis, com ele atuando no shotgun a maioria das vezes. Porém no exotic smashmouth do Mularkey, o que vimos foi um time que tirava responsabilidades do QB, correndo com a bola em formações under center para depois tentar passes em rotas verticais.

Com Mariota em campo, o Titans obteve uma média de 6,8 jardas atuando a partir da formação shotgun, a terceira melhor marca da liga. Apesar do sucesso, 26 times colocaram o seu QB em mais jogadas no shotgun do que a gente.

A seleção das jogadas também não favoreceu o Mariota. Especialista em passes curtos, ele muitas vezes foi obrigado a lançar para WRs em rotas verticais e a mais de 20 jardas de distância da LoS. Nessas situações, Mariota foi o 23º QB mais preciso da liga, porém o 12º que mais realizou estes passes.

“O Titans usou rotas que buscavam as big plays. Sob max protection, Mariota precisou lançar para apenas um receiver correndo downfield. Esse tipo de jogada tira as opções do Mariota, impedindo o jovem de manipular as coberturas com as suas ações no pocket. Os sacrifícios do ataque criaram passes óbvios, exigindo do Mariota lançamentos longos e em tight coverage. As escolhas do Mularkey enfatizam o talento da linha ofensiva, torcendo para que a defesa cometa erros ao invés de colocar o seu QB para causar um grande impacto em cada jogada”, escreveu Fahey em seu novo livro, o Pre-Snap Reads.

A situação adversa não fez do Mariota um QB ruim, muito pelo contrário. Aos 23 anos, ele acumulou estatísticas sensacionais, que o deixaram atrás apenas da elite da liga. Ao lado de Colin Kaepernick, ele foi o único QB da NFL que conseguiu passar quatro jogos sem lançar um interceptable pass. Em passes de 11 a 15 jardas da LoS, ele conseguiu ser mais preciso que Matthew Stafford, Russell Wilson, Matt Ryan, Derek Carr e Jameis Winston, por exemplo.

Todas as qualidades do Mariota ficam evidentes assim que o Titans chega à red zone. Nas últimas 20 jardas do campo, ele é um completo animal. Em dois anos na NFL, foram 33 TDs e nenhuma interceptação. Em 2016, além de tornar o ataque do Titans o terceiro mais mortal desde 2001, ele ainda foi o QB mais preciso.

Com um grupo de WRs também disfuncional para o esquema utilizado, Mariota não recebeu muita ajuda ao longo da temporada. Os drops foram raros, porém quando o assunto foi jardas após a recepção os receivers decepcionaram demais. Somente 1.353 das 3.426 jardas do Mariota foram conquistas com a bola em posse dos seus companheiros, a nona pior marca da liga.

Quando o Mariota é impreciso o socorro não aparece. Em apenas dez ocasiões os WRs do Titans foram capazes de transformar um passe ruim em uma recepção, novamente uma das dez piores marcas da liga.

O trabalho da OL foi muito bom, mas análises assim não podem ignorar o trabalho do QB. Dos 23 sacks que levou, o Mariota foi culpado por apenas dois.

Criticar o esquema do Mularkey não é dizer que ele fracassou, muito pelo contrário. Bastante contestado em seu retorno ao cargo de head coach, ele conseguiu montar um ataque que cumpriu muito bem o prometido. O exotic smashmouth deu certo, mas ser um bom piloto na Stock Car não garante o direito de pilotar um carro da Nascar. Mariota é o QB mais talentoso da liga desde a chegada do Andrew Luck. Ele tem tudo para ser uma estrela, ele tem todas as ferramentas que um QB campeão do Super Bowl precisa ter, porém o seu comandante segue insistindo em um esquema cauteloso, quando o correto seria pisar no acelerador com toda a força.

Não tem como falar do Mariota sem citar o martírio que foi a sua temporada de estreia na liga. De tão bom prospect que ele era, alguns times chegaram a manifestar preocupação com a sua falta de defeitos. O Titans não deu a mínima para isso e fez a escolha correta, porém falhou em seguida. E falhou feio. Em 2015, o time mostrou como uma franquia não deve se preparar para receber um QB calouro.

Tirando o TE Delanie Walker e o OT Taylor Lewan, todo o ataque era muito fraco, com diversos atletas jovens. Após selecionar o Mariota, o Titans optou por ir atrás de um WR no draft, e o escolhido foi Dorial Green-Beckham, jogador trocado na temporada seguinte e hoje sem emprego. Na terceira rodada, o GM Ruston Webster recrutou o seu RT titular. Por algum motivo, ele pensou que Jeremiah Poutasi poderia ser um OT eficiente na NFL, mas logo na week 2 o bloqueador de Utah mostrou que não tinha condições de ficar em campo. Durante o training camp de 2016 Poutasi foi cortado e hoje ele é reserva em Jacksonville.

Daquele ataque titular, o Titans também cortou ou deixou testar o mercado os WRs Kendall Wright e Justin Hunter, os RBs Antonio Andrews e Dexter McCluster e os OLs Chance Warmack, Brian Schwenke e Byron Bell. Também deixaram o clube os RBs David Cobb e Bishop Sankey e o center Andy Gallik, todas escolhas do Titans no draft.


Ainda duvidando do Mariota? Então delicie-se com as melhores jogadores dele, em 2016:

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Um comentário:

REI disse...

Sempre defendi a escolha de Mariota desde o pré-draft. Porém ele me surpreendeu no ano passado no shotgun. A capacidade de leitura das defesas e a velocidade em se livrar da bola impressionam no Mariota. Tomara que nosso corpo de WR corresponda.